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Yuru-chara: as mascotes japonesas que quase sumiram, e agora conquistam o ocidente

Fuleco, o tatu-bola mascote da Copa do Mundo no Brasil; Zabivaka, o cão mascote da Copa do Mundo na Rússia; o Canarinho, mascote da seleção brasileira, que assumiu uma personalidade "pistola" em 2018; a Galinha Azul, mascote dos caldos Maggi nos anos 1990... mascotes são um conhecido fenômeno da comunicação social. Eles estão em todo mundo, e isso não é de hoje.

Mas hoje vamos falar sobre a força que eles ganharam no Japão, onde a cultura das mascotes é levada muito, muito a sério. Empresas têm mascotes, campanhas publicitárias têm mascotes, organizações sem fins lucrativos têm mascotes. Quando municipalidades também decidiram adotar mascotes — e isso é recente, dos anos 2000 para cá — a coisa chegou a outro patamar.

Os yuru-chara estão chegando.

No Japão, as mascotes de maior impacto cultural no momento são chamadas de yuru-chara (ou yuru-kyara, a depender da transliteração). Eles se diferem do nosso Zé Gotinha, por exemplo, porque são criados em estética kawaii, termo que pode ser traduzido como "fofinho". Mas é um "fofinho" muito peculiar, às vezes bem minimalista e inconfundivelmente japonês.

A inspiração dos personagens vem, geralmente, de algum animal da fauna ou do folclore japonês. Mas não há, de fato, um limite. Tem mascote que é inspirada em objeto inanimado, tem mascote que é uma parte do corpo humano — de dente humano gigante colorido a um fígado humano com rosto de elefante — e referências à religiosidade local também não são tão raras.

Mascotes com traços culturais estrangeiros também fazem parte da lista, havendo desde uma mascote inspirado nas Marioscas, tradicionais bonecas russas — como visto na foto acima, bem no meio da imagem — até outra inspirada num oficial americano do século 19 que colaborou com a abertura do Japão para o mundo.

Peririn, de Yokosuka, inspirado em Commodore Perry.
O fenômeno yuru-chara é algo recente na história do Japão, e não parece ter surgido com a pretensão de tomar proporções tão grandes. Um dos primeiros mascotes dessa leva foi o gato Hikonyan, que foi escolhido como mascote da cidade de Hikone em 2007, gerando grande repercussão e inspirando outras cidades a seguirem o mesmo caminho.

Já em 2010, a cidade de Kumamoto escolheu o simpático urso Kumamon como sua mascote, fazendo um estrondoso sucesso dentro e fora da cidade — é, provavelmente, o mais bem-sucedido yuru-chara até agora.

Com a escolha de mascote municipal deixando de ser mero factóide e se transformando em mercado lucrativo — lojas pop-up faturam alto com pelúcias, souvenires e bugigangas em geral — criou-se uma corrida entre as cidades para que desenvolvessem mascotes com características semelhantes aos que já tinham dado certo. A adesão de empresas — que sempre tiveram mascotes, mas nem sempre com estética kawaii — veio como consequência.

Hikonyan, o pioneiro.

Kumamon, o mito (não confundir com digimon de mesmo nome).
Outras mascotes famosas dessa primeira geração são Chiiba-kun, o cãozinho mascote de Chiba, Shimanekko, o gato mascote de Shimane, e há ainda outros, mas a lista de pioneiros não é tão grande. No caso de Chiiba-kun, o desenho de seu corpo foi inspirado no traçado que os limites do município fazem no mapa.

Chiiba-kun, em ação.
O mapa de Chiba e o formato de sua mascote.



Shimanekko, outro doce pioneiro
(sua cabeça faz referência aos templos xintoístas de sua cidade... pois é).
Também tem algumas vezes em que a mascote não dá tão certo. É o caso da campanha anti-drogas da cidade de Kyoto que, inicialmente, recusou a mascote Yakudamedosu, um esqueleto de dinossauro-vampiro com dentes de seringa (!!!) e acabou escolhendo NoDrug-kun, um personagem até simpático, mas que leva em sua cabeça justamente os narcóticos que pretende combater (incluindo uma folha de maconha!) o que nem sempre deixa uma boa impressão por onde passa.

Yakudamedosu: não tem droga, mas pensa num pesadelo com esse bicho...
NoDrug-kun: com a erva na cabeça.

Não raras também são as vezes em que uma mascote alternativa acaba fazendo mais sucesso que a oficial. É o caso de Funassyi, uma pera que foi rejeitada como mascote da cidade de Funabashi. Mesmo após a rejeição, Funassyi ganhou popularidade e gerou dividendos para seu criador, se tornando mais popular que a mascote oficial, Funaemon, cuja inspiração vem dos mercadores da era Edo (?!?). 

Funassyi (à esquerda) e Funaemon.
O Ministério da Fazenda japonês esteve muito perto de acabar com tudo em 2015, quando impôs limites no gasto de dinheiro público com os personagens. E, com alguma razão, afinal, a missão das mascotes é alavancar o turismo e os negócios regionais — empresas de Kumamoto podem usar Kumamon gratuitamente*, por exemplo —, não fazendo sentido se elas se tornarem algo caro demais para ser mantido.

Até uma eliminação em massa das mascotes municipais foi proposta, mas ninguém deu bola. Incrivelmente, os yuru-chara, com tão pouco tempo de vida, já têm uma história de resistência.

É nerd ou não é?

A cultura yuru-chara é diferente da dos cosplayers, pessoas que se vestem como seus personagens favoritos, e também não tem, necessariamente, uma ligação com a produção de jogos, animes e mangás pelo qual os otakus são aficionados. Mas as mascotes trazem um evidente know-how desses universos, onde o Japão já se destaca há muitas décadas.

O barulho dos yuru-chara já começa a ser ouvido no ocidente. O site Mondo Mascots, mantido por um britânico que mora no Japão há 16 anos, tem se tornado referência na divulgação dessa cultura entre ocidentais. E dada a variedade de instituições "mascotáveis" no Japão, o que não faltam são personagens novos. Quase todo dia tem alguma novidade no site ou em suas redes sociais.

Funassyi, a mascote fofinha, já pulou de pára-quedas e se esquivou
de explosões em programa bizarro da TV japonesa.

Mascoteria e rebeldia

Uma das personagens de maior ascensão em tempos recentes, e que terá um artigo só para ela em breve por aqui, é a Chiitan, uma menina furão que usa um chapéu com formato de tartaruga. Ela foi criada pelo Conselho de Turismo de Akihabara, região metropolitana de Tóquio conhecida como "Cidade Elétrica", de onde se tornou mascote, mas também ocupa extraoficialmente esse posto em outra cidade, Susaki, cuja mascote oficial é Shinjo-kun, também um furão.

Chiitan (à esquerda) e Shinjo-kun
De acordo com matéria de maio de 2018 do jornal The Japan Times, a nova geração de mascotes encabeçada por Chiitan, tem a personalidade como diferencial, não se limitando apenas a uma pessoa aleatória com uma fantasia gigante. Quem acompanha Chiitan nas redes sociais costuma ser surpreendido por performances anárquicas de uma mascote destemida e, como se costuma dizer no Brasil, "sem noção". Suas travessuras vão desde furar bloqueio de seguranças até derrubar carros de pequeno porte no chão.

Chiitan já se transformou numa espécie de youtuber, mesmo caminho que já começa a ser seguido por outras mascotes. Enquanto vídeos curtos de suas peripécias são postados no Facebook, no Instagram e no Twitter, compilações com vários desses vídeos são postados em seu canal no YouTube, que cresce vertiginosamente em número de seguidores. E as respostas e comentários em idiomas além do japonês têm se tornado cada vez mais frequentes em todas as redes.

Nota*: No caso de Kumamon, muito mais do que uma permissão para empresas locais usarem a mascote, o que houve foi o uso da mascote por parte de empresas de vários outros lugares, inclusive de fora do Japão, impulsionados pelo sucesso da personagem. As empresas locais protestaram para as autoridades municipais de Kumamoto, que passou a restringir o uso gratuito da mascote apenas às empresas ali instaladas.


Com informações e imagens de Mondo Mascots, Fukuoka Now, Citylab, Imgur, The Japan Times e Tabido.
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