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Na novela da sereia, Goku cai na caricatura

Games, animes e cultura pop são uma área de interesse. Novelas são outra. O mais comum é que quem se interessa por uma não se interesse por outra, embora haja boas e marcantes exceções -- talvez você, que lê esse texto agora, seja uma.

Já conheci dois irmãos gêmeos, certa vez, que sabiam detalhes sobre títulos da Marvel e fichas técnicas de novelas com a mesma propriedade. Mas, geralmente, é bem raro que esses mundos se encontrem.

Quando telenovelas se dispõem a mostrar elementos da cultura pop costumam não ser tão bem sucedidas. Glória Perez, autora de A Força do Querer, atual novela das nove, já deu uma leve flertada com esse mundo em 2009, quando inseriu personagens que jogavam Second Life em Caminho das Índias. Não foi das tramas que mais chamassem atenção.

Bem antes disso, na década de 1990, ela colocou na novela Explode Coração algo que, até então, ainda parecia ficção científica: pessoas conversando em tempo real pela internet.

Em A Força do Querer um personagem adolescente meio-nerd-meio-otaku chamado Yuri divide as atenções com toda sorte de personagens, digamos, diferentes: a protagonista gosta de se vestir como sereia e enfrenta a sogra madame para dançar carimbó, seu ex-noivo tem como sonho dirigir um ônibus-balada, e tem ainda uma personagem inspirada na real Bibi Perigosa e outra que é viciada em carteado.

Segundo perfil do personagem no GShow, Yuri (Drico Alves) "se dedica ao cosplayers [!?!?!?!?] e é viciado em internet".

Não faço questão de assistir a esta novela, mas confesso que sento à frente da TV e deixo ela me levar. Quando penso que não, um capítulo inteiro passou diante de meus olhos e os créditos estão subindo. Não é algo que dê agonia de se ver. É diferente de várias novelas intragáveis que passaram recentemente, que praticamente pediam para que trocássemos de canal. Em outras palavras: não assisto A Força do Querer todos os dias, mas assisto o suficiente para saber que não é todo dia que o tal garoto aparece.

Das poucas vezes em que apareceu, adivinhem só: mostrou que não passava de mais uma abordagem meio capenga do mundo nerd-geek-otaku. Após ser visto algumas vezes fazendo cosplay de Goku, de Dragon Ball Z, o menino, que quase não tinha falas, entrou num estereotipado (e falso) voto de silêncio. Passou a só se comunicar com a mãe através de mensagens de celular e ainda disse que ela era ultrapassada por usar a voz para se comunicar. Pela lógica, o garoto deve chegar aos eventos de cosplay e escrever "oi eu sou o Goku" só no celular. O Kamehameha talvez merecesse uma twittada.

O Estadão já apurou que cosplayers criticaram o personagem. Reclamar de personagens de novela é algo muito comum hoje em dia. Até ex-chacretes já reclamaram de uma personagem ex-chacrete numa novela há algum tempo. Evangélicos ao serem retratados de forma negativa em algumas novelas prometeram boicote. No caso dos cosplayers a solução seria sem efeito: o boicote de um público que, tradicionalmente, já não se interessa por novelas.

Para tirar um pouco o garoto do setor da figuração de luxo, foi anunciado que ele, em breve, aceitará convite para o jogo Baleia Azul, que foi responsabilizado por alguns casos de suicídio recentemente. Será o chamado "merchandising social". Nesse caso, trata-se de um assunto muito sério e seria realmente muito importante que não fosse tratado de qualquer jeito.

De qualquer forma, não foi dessa vez que geeks, nerds ou fãs de cultura pop foram bem retratados numa novela. E, provavelmente, eles (nós) nem se importem (nem nos importemos) com isso. Resta apenas o trabalho que cada um passa a ter na hora de explicar para uma tia ou uma avó que as coisas não são bem como a novela mostra.
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